|
Você está aqui: > Gente e Viagens > Edições anteriores > Dezembro 02 » O Prazer aqui tão perto
Roteiro Ribatejano
Porquê fazer quilómetros de estrada, e sempre para Sul, quando
o país não é grande, mas também se estende para Norte.
Há atractivos imensos em lugares que o campo esconde, no topo da montanha, na outra praia – a que o rio moldou.
Içado em seu cavalo, de puro sangue Lusitano, o campino
vê passar a lezíria, ao longo do rio: pastam os touros, escurece
a vinha e o fandango aquece o rancho ribatejano.
Texto: Américo Alves
Houve tempos, e nem por isso tão longínquos, em que os lisboetas acordavam cedo e preparavam o farnel para irem fazer pic-nics por bandas de Vila Franca: eram horas de estrada para chegar «ao campo»...
Hoje, Vila Franca de Xira está a dois passos do aeroporto internacional da Portela de Sacavém, a um passo do futuro aeroporto da Ota, com a Auto-estrada dum lado e o Tejo do outro.
A cidade tem tido grande desenvolvimento, e o projecto de recuperação da zona ribeirinha tem vindo a dar novo alento a esta urbe, na encruzilhada do eixo Norte-Sul, com ligação a Espanha para Leste.
Com a zona urbana na zona ocidental do rio, são característicos os Avieiros, pescadores que originalmente vieram de Vieira de Leiria e aqui se fixaram, continuando até hoje a pesca do sável, da enguia ou da fataça nas suas bateiras de madeira.
A frente ribeirinha da vila inclui o jardim e um complexo desportivo, mas é pela ponte que atravessamos o Tejo, deliciando-nos com a vista que se estende sobre a Reserva Natural do Estuário do Tejo com as suas zonas de sapais, salinas e mouchões à nossa direita.
Do outro lado do rio, a Lezíria e a criação de cavalos e touros, especialmente destinados à festa brava, que aqui tem tradição e pergaminhos.
A caminho para norte, repara-se que Benavente tem apostado na recuperação das suas zonas ribeirinhas, com a instalação de estruturas de lazer capazes de atrair os visitantes.
Esta localidade teve origem num grupo de colonos estrangeiros que, obedecendo a um plano de povoamento de D. Sancho I, se fixou na margem sul do rio fundando, desde 1199, a povoação que então ficou sob égide e senhorio da Ordem de Calatrava, a que então se subordinava o Castelo de Coruche, em cujos limites ficava.
Mais para norte, atravessamos as belezas naturais de Salvaterra de Magos, por onde a família real deslocava um conjunto de personalidades nobres e famosas para caçar, sendo disso memória o palácio de veraneio mandado edificar pelo infante D. Luis junto ao Cais da Vala. Aliás, este cais teve durante anos grande importância para o transporte fluvial entre Salvaterra e Lisboa, permanecendo até hoje um lugar aprazível e digno de ser visitado. Para os apreciadores de monumentos, torna-se obrigatória a visita à Igreja Matriz, situada no centro da Vila desde 1296, com o seu altar de talha dourada decorado com uma grande tela do séc.XVI. Já o mesmo se não pode dizer do Palácio da Falcoaria que, pelos sucessivos trabalhos que sofreu ao longo dos anos, perdeu a sua traça primitiva, o que lhe retira parte do valor histórico. Conserva ainda, no entanto, o falcoeiro, exemplar único no país, com 310 nichos para falcões.
Daqui a Almeirim, é uma estrada quase toda em linha recta, de bom piso e paisagem agradável, que se vai atravessando sem dificuldade.
As sua maravilhosas coutadas de caça tornaram-na num dos lugares preferidos dos reis da II Dinastia a ponto de, no século XVI, ser chamada «a Sintra de Inverno».
Hoje com interesses diferentes, Almeirim mantém alguns monumentos dessa e de outras épocas mais recentes, de que se deve salientar o solar novecentista da Quinta da Alorna, onde ainda se pode adquirir o vinho regional que acompanha a suculenta gastronomia local, de que a «sopa da pedra» é, sem dúvida, o seu ponto alto, estreitamente ligada que está a um conto popular tradicional. à
à Chegar até aqui e não estender a viagem a Alpiarça seria uma lástima: perder a ocasião de visitar a Casa-Museu dos Patudos, edifício assinado pelo Arquitecto Raul Lino, e que foi residência de José Relvas, figura de decisiva da I República. Ali se podem ver peças de pintura, escultura, cerâmica e mobiliário, entre as várias colecções expostas. Se a visita a Alpiarça calhar no último fim-de-semana de Março, não perca a Feira do Vinho, que reúne os melhores néctares da Região Demarcada do Vinho Ribatejano, em que se mistura a leveza dos brancos da zona de Almeirim com os tintos carregados do Cartaxo. Se, pelo contrário, passar por aqui na terceira semana de Setembro, será tempo para visitar demoradamente a Feira Agrícola e Comercial, verdadeiro evento de carácter regional. De qualquer modo, e em qualquer altura do ano, não deixe de se deliciar com o Carneiro à moda de Alpiarça, as Migas fervidas, as Broas Fritas e os SS de Amêndoa.
E sobretudo, nesta terra rica, de vinhos e verdes planícies, não deixe de saborear os maravilhosos e suculentos melões, cuja produção na região é considerada «fantástica» pelos conhecedores.
Sendo a EN 388 o que é, volte pela 118 e no cruzamento vire à direita para apanhar de novo uma ponte. Desta vez a que nos leva até Santarém, sede de Distrito e praça-forte à à dos mouros até 1147, quando foi definitivamente reconquistada por D. Afonso Henriques.
Santarém, sobranceira ao Tejo, rodeada de lezíria e de História, que se revela logo nas muralhas e Portas de Santarém, que dá acesso ao centro histórico, construído sobre um castro lusitano por onde passaram fenícios, gregos, romanos, visigodos e árabes. Das oito portas que existiam primitivamente restam duas, das quais a mais conhecida - a Porta do Sol - é hoje um jardim público de onde se tem uma panorâmica excepcional sobre o rio e a outra margem.
Desses tempos remotos da fundação restam-nos a Igreja e Claustro do Convento de São Francisco, fundado em 1242, a Igreja Paroquial de São Nicolau e o Convento de Santa Maria de Almoster, ambos do século XIII. E depois, «subindo» pela história um sem número de igrejas e conventos, os jardins e miradouros, os museus.
Por aqui se pratica desporto aventura, ténis, caça em coutadas turísticas e, obviamente, equitação.
Aqui se pratica também, e muito, o bom garfo - a não perder as Couves a Murro, a morcela de arroz de Alcanena, ou os doces conventuais das Donas - e o bom copo. Os restaurantes e tascas típicas abundam por todo o lado, e a dificuldade está na escolha.
Santarém é o centro da região, e dali se podem fazer investidas a pequenas vilas e povoações dos arredores, muito próximas, e todas repletas de atractivos.
Se for época dela, não perca uma tourada em Santarém: aqui se reúnem os verdadeiros aficcionados e os artistas têm de dar o seu melhor.
Terra de tradições que se esmera em preservar, Santarém mantém viva a alma profunda do homem ribatejano.
Apesar da Auto-estrada que nos poderia levar em menos de uma hora até Lisboa, decidimos voltar para sul pela antiga EN3 a caminho do Cartaxo, onde o saudoso Vasco Santana «ia a termas».
De tradição vincadamente vinícola, o Cartaxo foi desde sempre ponto de passagem para o Interior do país: uma estrada romana já ligava Olissipo (Lisboa) a Scalabis (Santarém) com passagem por estas terras.
Mas foi sobretudo nos finais do século XIX que o Cartaxo viria a ganhar preponderância, com a introdução de uma série de inovações tecnológicas ligadas à produção de vinho, tornando-se o centro mais importante de vinificação do Vale do Tejo.
Fazendo obviamente parte da Região Demarcada do Vinho do Ribatejo, o Cartaxo deve ser visitado preferencialmenteà à entre Abril e Maio, altura em que se realiza a Feira do Vinho. No resto do ano, e depois de uma passagem pela Igreja Matriz (século XVI), é obrigatória a visita ao Museu Rural e do Vinho do Cartaxo.
Dado que o nosso condutor não se entregou aos prazeres de Baco em terras ribatejanas, regressamos a Lisboa com a satisfação dum passeio bem conseguido, pelas margens cercanas do Tejo.
|